quarta-feira, 14 de abril de 2010

Árvore







a poesia sobre poesia disse:
Existem olhos cúmplices e distantes
preparam o peixe juntos
não há submissão

a poesia sobre a poesia disse:
Não há explicação nas palavras
só a vontade adormece o delírio onírico

e a física sobre a física disse:
É impossível não pensar o óbvio
o corpo dança os ritmos dos galhos
jazz samba coco blues 
e está formada a árvore

bebem a seiva dos quilômetros existentes
desfeitos nas construções lexicais
raiz se faz colheita 

(Juliana Trentini)




Aperitivo poético:

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.


O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


(Adélia Prado)

2 comentários:

  1. a faísca que samba no entreolhar dos dois é só deles.
    ninguém tira,
    delirante, hipnótico...

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