quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Uma nova fatia





Gente, hoje o aperitivo só terá o aperitivo. Estou muito ocupada com as aventuras culinárias de final de ano e pra ser bem sincera não sou muito ligada a determinadas tradições, porém, no entanto, contudo e todavia, é sempre bom desejar para os outros aquilo que nós queremos que nos seja permitido individualmente.

Então, para vocês desejo todas aquelas coisinhas de praxe: Felicidade, paz, amor e saúde! E não posso me esquecer, desejo também palavras. Sendo assim, ninguém melhor do que Carlos Drummond de Andrade para ilustrar o aperitivo e fechar o ano com chave de ouro:


Aperitivo poético

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente...
Para você,
Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que a sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.

Desejos grandes...
e que eles possam te mover a cada minuto, ao rumo da sua FELICIDADE!"

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Onde estará o meu amor?




    Quero um beijo apaixonado
Apareça seja lá você quem for o desejado
não quero mais amores vãos
vão embora os sem função alguma
quero chocolates sem flores como complemento
borboletas no estômago
ânsia inflamável
não quero um só beijo apaixonado
quero vários





Aperitivo poético:

Carícia

A pele é o mar:
aqui deságuam
os rios da vida.

A pele é o cântaro:
aqui se guardam
todas as águas,
chuvas de alegria
ou lágrimas.

A pele é o mapa:
aqui se gravam
todos os ventos.

Escreva na pele do outro,
com a ponta dos dedos,
o alfabeto mais antigo,
sussurro,
estrela,
carícia.

(Roseana Murray)


Ser





Ela sempre foi muito chorona. Chorava de medo, de raiva, de dor, de desgosto e de amor. Um dia foi expulsa de si, do seu mundo, do seu quarto neutro de cortinas de cor indefinida e de paredes com telas de paisagens e um planeta terra sobre seus sonhos, terra que lhe abandonou de tanto cavar o chão, então faltou piso, faltou buraco.

Sobrou tristeza, tanta tristeza que forçou o choro e esse não veio. Tanta vontade de inundar o universo... Só conseguiu marejar os olhos, mas nenhuma lágrima caiu.

Ela virou palavra presa, inaudita, semente de mar, correnteza presa.


(Juliana Trentini)





Aperitivo poético:

Nostalgia

Nesse país de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p´las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi…
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o reino de que eu sou infanta!

Ó meu país de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!


(Florbela Espanca)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Manhã




Acordei para regar os passarinhos
Esquecestes o ofício de amanhecer a manhã
Eu vim com o regador e os sininhos
Para esconder o sereno que ficou
E as pegadas das estrelas marcando nossa passagem

O som é todo terno
As cores indecifráveis
Saio nomeando as pedras do canteiro
E seus abraços intermináveis
Sorvem meu corpo preguiçoso e matinal

Acordei para regar os passarinhos
Você ficou enluarado com o sol
Escondeu-se embaixo do lençol
E eu despertei sozinha
Para velar seu eterno sabor estival

Acordei para regar os passarinhos
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...


(Juliana Trentini)






Aperitivo poético:


Universo No Teu Corpo

Eu desisto,
Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
Uma gente que não viva só pra si

Só encontro,
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi

Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor

É por isso que eu preciso
De você, como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor

Vem comigo,
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço, corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem versos à canção

Em que eu digo,
Que estou morto pra este mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante, amigo em minhas mãos.

(Taiguara)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tema Roubado




Desejo

abro a porta e quero engolir o mundo
não me satisfazem as molduras nas paredes da casa
nem os livros da estante tantas vezes já lidos

abro a janela e quero mastigar as nuvens
feito criança com algodão doce nas mãos
destelho o teto e parto quebrando o tempo

caçador de fases lunares
de estrelas cadentes
de naves espaciais
de sonhos e ilusões

desiludido
de possuir limitações
insatisfeito
triste de quem se conforma
com a dor instalada no peito

arranco o desengano das minhas entranhas
e desenganado vivo a procurar razão
há de existir algo melhor, amor maior
para quem não estaciona na primeira vaga que a vida exibe


(Juliana Trentini)





Aperitivo poético:






Segundo - O Quinto Império


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem

No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem,
Que as forças cegas se dormem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no astro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatros se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vai viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

(Fernando Pessoa)



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A canção que você pediu






Todos os dias ele olhava atento seus cadernos, livros, agendas, sempre procurando a si nos versos que ela largava nos papéis. Mas ela não o amava, talvez nunca o tenha amado; no entanto, isso é apenas uma hipótese, pois quando o amor acaba, há sempre a sensação de que ele jamais existiu.

Ele se via sempre nas estradas, nos oceanos, nas estrelas, nos acasos, nos fatos consumados, nos medos, nas certezas e nas dúvidas que ela ilustrava em seus romances. Ele via porque queria enxergar sua importância de alguma forma. Ele era desimportante, ele era o fracasso cristalizado de qualquer rubrica de sonho. 

Ela seguia, satisfeita de ser sozinha e de não sentir saudades do passado. Ele saía conquistando estrelas que encontrava em seu caminho, formando constelações apagadas, fustigadas e tristes. Cada um habitava seu universo peremptório.

Assumindo agora um discurso em primeira pessoa, a personagem rouba a fala do narrador e diz:

“ Essa é a canção que você pediu, que seja um presente que na vida não pude dar, que encontre um olhar que não seja igual ao meu virado para baixo, com abismos e caminhos contraditórios. Encontre braços afetivos sem limitações de espaço, que te impeçam de sentir calor ou frio, encontre aquela estrada que era a fuga da cidade, onde só distingue-se o som do vento e dos bichos durante a noite, em que as cordas do violão traziam palavras cravadas no silêncio, vai e segue essa melodia desconhecida, emitida por quem deseja que aprendas a ouvir a outra voz que sempre há dentro de você e assim visualizará a terceira margem do rio; ela está esperando que possas caminhar sem pisar nos lírios, basta que ames a si e então entenderá que é possível amar ao mundo e alguém”

Notas se desprendiam das paredes, paredes estas que se ergueram e solidificaram ambos em sua individualidade, com suas fotografias emolduradas e cruas nas tradições de deixar uma imagem para os herdeiros. 

(Juliana Trentini)


Aperitivo poético:

Me faça um favor

quero que você me faça um favor
já que a gente nao vai mais se encontrar
cante uma canção que fale de amor
e seja bem fácil de se guardar
(...)
mesmo que as pessoas lembrem de nós
mesmo que eu me lembre dessa canção
nao vai haver nada pra recordar
nada que valeu, que houve de bom
meu jardim, seu quintal
sempre a mesma flor
hoje não, cada um
dentro do seu mundo
navegando contra a solidão

Sá, Rodrix e Guarabira

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Noite







Vou calar minha solidão nas palavras
Cavar nas paredes algum nome
E pichar com a velocidade de um bandido em furto
Um olhar que prendeu o meu
Mas se o meu está preso
Não posso ver qual arte está presente nessa tela
Nem posso afirmar categoricamente quem é ela
Só sei que vem durante a noite
E me mastiga como açoite
Do chicote que outrora nos negros estalava

(Juliana Trentini)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Percepção




            Há pessoas que projetam suas imagens no “jogo do enquanto” e outras nos “fardos do depois”. Tudo que se vê diante da íris não é exatidão, é esboço que cada um com sua alma valente ou covarde descobrirá nas entrelinhas marginais que habitam paisagens ou poesia morta.

            Uma canção atravessa o mar vermelho, ou verde, ou azul, dependerá de qual lugar do universo você habita, ou que desejo se projeta no ser que sonha.

            Há de se seguir aquele barco que talvez tenha um ninho cheio de carinho ou braços desnudos de afeição, procuremos o mapa e cada um encontrará a sua estrada inversa cheia de percalços e enganos.

E quando encontrar o porto, abrirá a porta da casa cheia de vento, trazendo toda a poeira cósmica do tempo, arrastando um pouco do mundo de fora para dentro dos azulejos e a fechará novamente.  O que o tempo determina é falsete e o que a alma sonha é verbete guilhotinando as nuvens.

(Juliana Trentini)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Descuido




 

O celular tocou. Havia esquecido a hora marcada, ele já estava a sua espera e resmungava a sua demora. Apressadamente, lavou apenas o rosto e escovou os dentes, entrou no elevador; a vizinha do andar de baixo mal a cumprimentou e ainda entrou na cabine com um perfume barato e doce, sabe-se lá se era mesmo perfume barato, mas lhe causou náuseas.

Ainda às tontas, quase cedendo às vertigens, sentou-se no carro e disfarçou o enjôo. Entrou no laboratório, pegou o envelope com o resultado na recepção; não teve coragem de abrir, voltou para o carro e seu pai, com olhar investigativo, perguntou:

- E ai filha, como estão suas taxas? Você sabe que tem que cuidar da sua diabetes.
- Eu sei, pai, mas está tudo certo! Não se preocupe. Pode me levar de volta para minha casa!

Chegou, ligou o som, verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão, abriu o envelope: positivo, mãe solteira, ligou o chuveiro. A água do banho carregou suas interrogações para o ralo e a vida se repetiu com novas afirmações. 
 
 
(Juliana Trentini)



sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Natalidade





No lugar onde nascem as canções, uma morreu. Perdemos o controle de natalidade, não há preservativo para as constelações, então estrelas nascem diariamente e se jogam em sua janela em busca de se refugiarem no ninho desse seu olhar, mas uma não quis abrigo, quis te possuir e faliu, convalesceu. Hoje uma estrela morreu, ela era canção que eu tinha feito sobre você e eu. Hoje a melodia cessou, pois você renegou o que roubei do céu pra te dar porque você não queria a luz do luar, mas sim as conchas do mar.


(Juliana Trentini)

Aperitivo poético:

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


(Mario Quintana)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

sobre três olhares








Presente para Silvia Lima:  





Realidade masculina


Estou cansado de tentar compreender o seu silêncio;  na verdade, é mentira, gosto até do que me inquieta no que diz respeito a você. Porém, observar os astros em um caleidoscópio com lentes embaçadas e uma leve ranhura que me impede de entender quais são as estrelas faz com que meu mundo não tenha órbita.

Até minhas palavras andam confusas, pouco coesas, com vírgulas encaixadas em lugares errados, muitas pausas para tentar ludibriar a agitação do meu sangue, e eu tento dominar o seu impulso de correr tão aceleradamente; no entanto, não há freio de mão para essa volúpia ardente, dominante tanto do corpo quanto da alma.

E observar você assim tão descrente dos meus sentimentos, risonha, cheia de luz é o que mais me incomoda e me deixa assim tão confuso. “Te ver e não te querer, é improvável, é impossível” e essa “bruta flor do querer” me faz ser prisioneiro de mim mesmo e habitar uma realidade conflitante, eu quero, mas não posso querer e vou me ausentando e ficando distante, quando na verdade o que eu quero é estar perto e assim quando me vejo estou coberto pelo seu olhar, abrigado no seu cheiro, segurando o seu quadril.



Realidade feminina


Não. Eu não me apaixono e ponto final. Sou aventureira, errante, não gosto de amarras, se o amor é livre, por que se prender a alguém? Não, eu não me apaixono. Há quem diga que isso é fuga, mecanismo de defesa, não concordo. Simplesmente é assim que acontece, aliás, tem acontecido ao longo desses anos todos de estrada. Mas eis que um dia todo o meu discurso de mulher irredutível foi por água abaixo, não porque me apaixonei, pois isso não existe para mim, a paixão, o amor e todas essas regrinhas bobas de classificar o sentimento são imposições que alguém criou, e quanta estupidez! Essa alegria triste que me habita não tem classificação, não pertence a um único nome, só sei que tudo se transforma quando o vejo e não consigo sequer descobrir qual a cor do seu olhar.

A única atitude possível para mim é observar e esperar, logo eu, que sempre fui tão impulsiva, inaugurei uma palavra que antes não existia no meu dicionário: “paciência”. E várias músicas aparecem como trilha sonora dessa novela mexicana sem os excessos que lhe são característicos. “Enquanto todo mundo espera a cura do mal/ e a loucura finge/que isso tudo é normal/eu finjo ter paciência (...)”, tudo bem, fingir é comigo mesma, sou atriz nata, mesmo sem ter pisado sequer em um palco na vida, mas me cansa, cansa e como cansa e observar você assim tão impassível é o que mais me dói, é nessas horas que tenho vontade de mandar a paciência às favas, o que adianta esperar se não sabemos se teremos esse tempo a perder... ai, Lenine, queria que ele prestasse mais atenção nessa sua música, mas o que falta para ele perceber? Talvez falte o verbo querer e eu permaneço nessa fraude do sorriso.

E eis que outra música se manifesta na minha cabeça [ai que saco! Não aguento mais musiquinhas romantiquinhas]. “Te ver e ter que esquecer é insuportável é dor incrível”. Tudo bem, apesar de ser mamão com açúcar, a canção tem razão, é insuportável, porém a maestria do disfarce feminino utiliza o olhar algoz e a força dos quadris para desfilar em sua direção e fazer de conta que o mundo ali é todo seu e que ele, o “desejado”, sequer existe.



Narrador-onisciente


Qual o sentido de querer o tempo todo fingir ser aquilo que não é? Sentir o que não se sente? Demonstrar a realidade oposta? Os personagens encabeçam um jogo de sedução sem propósito, pois são covardes e assim contraditórios, tal qual o amor ou paixão, e se nem eles sabem definir o que sentem, quem dirá eu, um mero narrador onisciente? Mas deixe-me mudar a forma do meu discurso senão acabarei me tornando narrador-personagem e eu não quero depositar meus sentimentos em uma história que não é minha.

Bom, essa é uma história que não vai ter fim e se chegar a ter, desconheceremos, pois o escritor parou por aqui, a única coisa que podemos saber é que dificilmente eles ficarão juntos devido a falta de coragem de ambos de enfrentar os seus dilemas, de abrir o jogo, de dar a cara a tapa, enfim, as razões não sabemos, mas eles permanecem nesse impasse por algum motivo e o possível caminho é o fim, de maneira crua, sem palavras e sem explicações, o que permanecerá é uma saudade dorida e um olhar arroxeado encoberto por um falso sorriso belo e cheio de luz.

Como dizia o poeta: “Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não”.


(Juliana Trentini)


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Narcísica



Diário da Ju III


“Tropeçavas nos astros desastrada
  Sem saber que a ventura e a desventura
   Dessa estrada que vai do nada ao nada
    São livros e o luar contra a cultura”

(Caetano Veloso)



Não. Não é egocentrismo, aliás, essa palavra me enoja um pouco, sempre procuro a variedade em si, dentro de um único ser que me habita, ser tantas em uma única carcaça é o que me alimenta constantemente.

E por que usar tanto a primeira pessoa? Simples, há um número a mais. Envelheci. Isso me assusta um pouco? Sim. Não pelo medo das rugas ou por achar que o tempo está passando depressa demais, isso não me amedronta, acho que “toda idade tem prazer e medo”, mas sinceramente, eu até ano passado odiava fazer festinhas de aniversário, tantas pessoas dizendo “parabéns”, mas por que parabéns? Eu não tive mérito nenhum! Apenas a coitada da minha mãe que por sinal sofreu muito no meu parto e eu ainda vim na condição de “acidente”. O fato é: alguma coisa mudou, não sei a razão, porém esse ano, resolvi ter bolo, amigos perto, cervejinhas, feijoada...E qual a razão?

A razão é ainda mais simples, descobri que fazer o que todo mundo faz não é tão ruim assim, afinal é apenas um dia que a gente “escolhe” para ser nosso e para festejar a vida de maneira mais particular e sociável ao mesmo tempo. Mas que graça teria envelhecer, senão existissem os amigos para compartilhar cada instante? Para falar besteira, rir, brincar, tomar banho de piscina, chorar, comer bolo, cantar e amar amar amar amar sem vírgulas ou ponto final. Pois a alma não é efêmera como o corpo e que a carne envelheça, pouco me importa!Minha alma já tem juventude engarrafada demais para guardar e distribuir todos os sonhos.

(Juliana Trentini)




Aperitivo poético que me representa nesse momento "eu" :

Alma errada


Há coisas que a minha alma,
já mortificada não admite:assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom,
a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há…
e quem é que hoje faz questão de virgindades…
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,ouvindo o que todos ouvem,
bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda.
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente,
o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido… 


(Mário Quintana)


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Estrada


O tempo era veloz e eu me arrastava. Ia, voltava. Voltava e ia. Acabava por ficar perdida na inércia e por não conseguir decidir qual caminho seguir, deixava-o me levar com suas mãos quase velhas.

Levava-me na valsa, sem vestido vermelho cheirando a guardado, sem amor antigo adormecido, sem música inaudível tocando no coração. Apenas seguia o compasso tão sem ritmo que ele tinha, e ainda menos ritmo eu tinha e covardemente bailava.

Por fim, os lençóis tão mal sonhados serviam de apoio para o pensamento que transfigurava a imagem do momento vão. E o olhar vago, vagava por entre as nuvens de algum céu que não pôde enxergar, desejando regressar e pegar a estrada inversa.

(Juliana Trentini)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ato






as palavras são apenas cortinas

que encobrem os verdadeiros atos

e sentidos.

nas coxias cochicham

[os desafortunados]

e vão jogando os dados do destino

Em vão...

pois a estrada é reta

e o menino sem certezas ou metas

é homem encerrando o espetáculo

(Juliana Trentini)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Lugar comum




De manhã, quando o hábito observa o sol rompendo o céu, eles se olham em meio aos lençóis de tom pastel, um olhar cor de cansaço aperta o botão do celular que toca uma musiquinha irritante. Nenhuma palavra trocada, ambos detestam conversar quando acordam.



Lava o rosto com sabonete esfoliante e se observa diante do espelho, o cabelo já está vermelho desbotado, quase laranja, a unha por fazer, a beleza tão desgastada quanto o amor.Ele prepara o café da manhã, a cozinha abre-se para os cheiros invasivos do dia que principia, o dejejum acompanha o mecanismo do silêncio e há um abismo entre eles, permeando o campo da introspecção dos dizeres.



Eles deixam a casa e seguem para seus trabalhos. Ela lida com o giz de cera, com as palavras e com as cabeças com tantas sentenças. Ele segue com seus códigos, leis e petições. Na hora do regresso, ele liga a tv na sala com um volume alto demais. No quarto de estudos, ela prepara a aula do dia seguinte e corrige textos. Mais tarde , ele coloca a música espanhola do seu mp3 e repousa sobre o travesseiro, lançando seu pensamento em direção ao teto, rompendo-o, cimento, tinta e cal. Os cílios querendo descansar, mas hesita e chama:



- Marília, vem deitar!

- Já vou!



E vai com os pés e pensamentos arrastados, pega o livro na cabeceira e começa a invadir um universo que não é seu e é logo interrompida.



- Marília, quantas noites você vai fazer a mesma coisa? Estou cansado de toda noite você se esconder no seu trabalho ou nos seus romances! Se você não está feliz a gente acaba, mas não finja que não tem marido, eu existo, tenho vontades!



-Engraçado Aurélio, só você tem vontades e as minhas não existem? Você quer que eu me entregue, que eu prenda o choro por amor se este se transformou em um bom dia que nem sequer nos damos? Você quer que eu me anule? Só eu tenho que ceder, é isso?



- Alguém tem que ceder!



- E esse alguém tem que ser eu?



- O problema é com você, é você que se esconde, foge, enfia a cara nos livros e esquece que eu existo. Ei, eu existo!



- O problema é comigo? Você que se transformou em um ser mecânico! Cadê a poesia, os versos, o perfume, a cor, o sabor? Você não se preocupa mais em me agradar, não há mais tempero, Aurélio!



- Tempero, é isso que você quer?



Ele abruptamente, aperta sua nuca enche a mão com seus cabelos, joga o livro para fora da cama e a beija, a ama e deseja e cala e ama e beija.Ela chora e se entrega...



O romance com as páginas abertas ao chão é o mesmo romance que abriga a cama e o teto, o amor é lugar comum, é a falta de liberdade que liberta, é o bom dia que se alardeia nas frestas da janela entreaberta.


(Juliana Trentini)


Aperitivo poético do dia:

Domino o impulso de sair
para fora da vida
para entrar cada vez mais nela.
O sopro que apaga a vela
reacende a chama.

(Carpinejar)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Fuga





Não percebia, mas sempre procurava subterfúgios para evadir o instante, burlava seus desejos e se escondia do seu próprio medo. Distribuia sorrisos rasgados e estava sempre com a mão estendida para ajudar o amigo diante da derrocada.

Desviava o olhar, era seu mecanismo de defesa, assim não se denunciava...talvez essa trava nunca tenha sido destrancada pela chave do tempo, a cor virada para baixo ou para os lados, sempre desviando... era escudo. Sim, covarde! Covarde diante de si, diante uma entrega que jamais se permitiu, óculos escuros.

Tão doce quanto um limão e tão suave quanto o mar arrebentando nas pedras, era essa a imagem pré-moldada no revestimento dos seus olhos e por trás das cortinas estava guardada uma caixinha de música com uma bailarina impossibilitada de dançar devido a uma pecinha quebrada.

A grande incógnita que habita as coxias do espetáculo está contida, composta e metrificada em uma canção sem som ecoando o silêncio. Há uma bailarina sem compasso, uma pergunta sem ponto de interrogação que versificam em dísticos um destino conduzido pelo próprio ser questionador:

“ Fui podado, tolhido, fugitivo!

Limado, trancado, morrido? Amado? “

(Juliana Trentini)
 
 
P.S:. Postagem dedicada as pessoas que não tem coragem de enfrentar seus medos e por um acaso incrível do destino são sempre os covardes que atravessam meu caminho e eu faço questão de aparecer com a maleta de primeiros socorros.
 
P.S:. 2  Hellen, acho que você traçou o perfil de maneira equivocada =P


Aperitivo poético do dia:

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
Estou no meu ouvido...
Dorme, coração...

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Travessia


















O carrasco vem
trazendo seu ódio nos cabelos
trançado de armas e rancor
não há leis, direitos e concessões
na luta entre homens e leões

não há nada que o coração verbalize
só vingança, ódio.
do outro lado tem os olhos
revelando o medo
medo, medo ... ... ... ...

o silêncio sepulcral
deixa o vestígio da dor
e ele atravessa a barca
sem visão, voz e ouvidos
mas tem suas moedas de pagamento
o barqueiro realiza a travessia

e de fim o que resta dessa guerra?
Nomes, coragem e covardia
lamento, desespero e poesia.

(Juliana Trentini)

sábado, 31 de outubro de 2009

Matéria de poesia


A horta de Maria e o caminho das violetas

Sobre Minha Senhora De Mim e Livro de Mágoas


A poesia colhida dos versos de Maria Teresa Horta é uma poesia mais liberta tanto no que diz respeito à forma quanto no plano do conteúdo. A poeta revoluciona o caminho trilhado pelas mulheres ao romper com a opressão machista, retratando em seus poemas a sensualidade presente no universo feminino. O erotismo passa a se apresentar sem amarras, não há medo de expor os desejos da mulher que por muitos anos foi tolhida, impelida de mostrar que também é habitada por anseios carnais. Há perceptivelmente um tom autobiográfico no livro Minha Senhora De Mim, observável na utilização acentuada da primeira pessoa, percebe-se ainda uma personalidade poética que se governa, que comanda o seu caminho, suas vontades e até mesmo os seus lamentos, estes conformados, exprimindo a necessidade de seguir adiante, mesmo quando a tristeza acomete.

Fazendo um paralelo com Florbela Espanca, temos então duas poetas (ou poetisas) portuguesas que abriram o caminho para a participação feminina de uma maneira geral, pois desobedeceram regras sociais que ditavam o comportamento das mulheres, lutaram por suas vontades, ideias e desejos. Mas em Florbela, o amor é um sentimento que se revela mais opressivo, doloroso, e o erotismo é pouco evidente; suas poesias são carregadas de um tom autobiográfico, a primeira pessoa está presente em quase todos os sonetos. O caminho das violetas mostrou-se em um livro cheio de mágoas e medos, medos estes que fizeram Florbela não suportar o desamor e ceder à tentação da morte, precocemente.

Em matéria de poesia o livro Minha Senhora De Mim, de Maria Teresa, é um grande marco na poesia contemporânea feminina. Maria João Reynaud in Vozes e Olhares no Feminino diz: “ Nesta obra poética, marcada por uma invulgar coerência, espelha-se uma concepção de poesia profundamente intimista e feminina, alimentada pela crença no amor único e recíproco, como uma forma absoluta de negar a violência da morte e a inconstância dos afetos humanos.” E é essa linha intimista que acompanharemos em versos:

Minha senhora de mim

* O título apresenta dois pronomes, o “minha” e o “mim”, passando a ideia de posse de controle de si mesma:

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

* Nessa primeira estrofe mostra a imposição de suas vontades, briga interiormente com os moldes da senhora que costuma se apresentar perante a sociedade e se desentende com ela mesma para desobedecer às regras impostas.

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

* Os dísticos estão em lugar de contraponto, exprimindo uma imagem forjada.

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

* Mostra o ponto de vista feminino e feminista.

(...)

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

* Exibe o estereótipo de mulher da época e se opõe como se dissesse: “eu quero ser dona de mim!”.

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

* Mais uma vez os dísticos aparecem em contraponto, formando uma tensão estética em que relata o desejo de se recusar as imposições, ser livre, ser senhora de si.



Já no intimismo de Florbela, percebemos uma entrega. Entrega diante das impossibilidades, uma tristeza infinita, um desgosto imenso, uma amargura, no entanto, não há nenhum movimento, nenhuma ação, sucumbe na incompreensão dos percalços da vida.

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

(...)

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


O eu lírico não consegue reagir, desnorteia-se, não encontra saídas nem caminho para seguir por não ter sido encontrada por seu amor. Diferentemente da poesia de Minha senhora de mim, que se governa, que rejeita as imposições. A poesia de Florbela exprime um leque de amores que viveu, mas sem achar aquele com o qual sonhava; já em Maria Teresa, vivenciamos algo realizado, ressaltando o pulsar sexual que também se faz presente na alma feminina. No poema Ponto de Honra:


Não sou escrava
de lamento
nem tento ferida
de enfeite

nem uso a raiva
que tenho
como um alfange
no peito

(...)

e não quero aneis
de aceite
para enfeitar os meus olhos


O título já começa por afirmar que o eu lírico não abre mão de suas vontades; na primeira estrofe diz que não usa o sofrimento para chamar atenção, para se fazer de vítima e em seguida que também não há de utilizar a raiva como arma, como faca para destruir os outros, não utiliza sentimentos negativos para passar melhor e por fim diz que não quer enfeitar o rosto de olheiras para se mostrar mais sofrida do que outros, não. Sua honra está em superar a tristeza, a dor e não de utilizá-las em nome de uma estética de martírio.

No Livro de Mágoas, a poesia A Minha Dor vem ilustrar o sofrimento de maneira bem diferente da poesia Ponto de honra do livro Minha Senhora de Mim:



A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
(...)

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ...



É uma dor opressiva, que consome, que corta feito alfange no peito, embora o eu lírico não tenha o intuito de se fazer de vítima, é consumido e desmanchado pela solidão, pelos tons sombrios, pela elegância de se massacrar um ser e mantê-lo enclausurado, preso em silêncio, tal qual um convento, onde o pranto, o tormento, a melancolia ilustram a cena, mas ninguém percebe, ninguém reconhece, ninguém vê.

Do pouco que ilustramos aqui, podemos perceber que ambas as poetas falam do sentimento feminino e do amor, porém uma segue uma linha depressiva e a outra libertária. Uma poesia de morte e outra de vida, mas ambas povoam o pensamento de quem lê, e o leitor colhe o verde da horta de Maria e o roxo das belas flores poéticas de Florbela.



(Juliana Trentini)

domingo, 25 de outubro de 2009

Verde







Verde de todos os tons possíveis e imagináveis, uma alegria frutífera para esconder as angústias do seu passado, passado este que daria um bom romance carregado de amor e dissabores. Não posso esquecer do cheiro, a colônia que usava também tinha a mesma cor dos objetos da sua casa, era verde, porém escuro, Mauá.

Mas por que falar no passado? O tempo verbal é algo que sempre me confunde, nunca sei a medida certa para encaixar os fatos em sua cronologia, se foi, é ou será... eu não sei, nunca sei...Kronos e as regras gramaticais me odeiam, na verdade não sei lidar muito bem com regras, fujo sempre de tudo que queira limar minhas atitudes, ideias, vontades, dizeres e verbos presentes, passados, futuros. Eu apenas quero verbalizar uma imagem que está presa, em cárcere privado na minha memória e a partir do momento em que eu libertá-la, ela deixará de ser só minha e ficará a critério de vocês descobrirem em que lugar do tempo foi estacionar.

A única certeza que tenho é a dos sentidos, principalmente visual e olfativo, não preciso mais falar da cor, pois esta foi sempre igual, não. É mentira! Ela já experimentou o cinza quando se viu sozinha com seus filhos pequenos, o marido nos tempos da ditadura sendo levado naquele carro em meio a tantas armas e silêncio, sem nenhuma explicação. E as cores que viu: O azul dos olhos dele que representavam um vazio imenso, talvez de medo ou de abandono e ela ficou inerte naquela mistura de tons.

Passou. A ditadura acabou e os filhos cresceram. Ele deixou seus aviões e ela o deixou depois de meio século e mais um pouco de convivência. As mudanças bruscas são ainda mais doridas quando não se é jovem e ela sofre alegremente, com um sorriso meio desorganizado e uma voz cheia de coros evangélicos que entoa afinada. Mas a imagem que está presa, que vou abrir o cadeado nesse momento sem tempo verbal exato, é que quando ela está tudo cheira. A casa tem cheiro verde, do louro no feijão, do coentro, da cebolinha, dos objetos, da colônia que deixou de ser Mauá... Quando ela está, o mundo abre-se para as cores mais diversas do que as pinturas que ela conserva em telas e presenteia para seus filhos e netos, a minha tela é um mar, VERDE, com uma jangada solitária vagando por entre as ondas, passeando o olhar sobre os coqueiros e o céu com tons amarelos da luz do sol. Eu me pergunto: essa vela, sou eu ou ela? Creio que é apenas uma tela feita com amor para enfeitar o meu quarto e nós vamos nos guiando sozinhas de acordo com o vento que embaraça sempre os meus cabelos e os olhos quase verdes e sem cor certa liberam as imagens que projetam em sua mente fértil, do solo mais fértil ainda que é esta epopéia de vida.

(Juliana Trentini)







segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Acalanto




Positivo.Felicidade, ansiedade e medo. Quase nove luas...entre cheias, minguantes, novas e crescentes, cresciam em sí dois sonhos, duas vidas para modificar outras tantas...e para enaltecer os olhares de tanta satisfação, satisfação esta que exacerba os sentidos dos dizeres, não existem palavras capazes de traduzir para qualquer dialeto que seja a representatividade que essas estrelas são para eles.

Cor? Lilás e branco, dois carrinhos, dois berços, dois colos, duas canções e tantas melodias diferentes... personalidades distintas desde o princípio uma carregando um nome doce e a outra um nome forte, mas o carinho, não há como distinguir.

E no espaço das vontades nada diverge, o choro sempre vem tocando a mesma toada no mesmo volume de decibéis, juntam a fome e a manha e pedem colo, esse desejo de canção já vem com o berço e como é difícil para ela compor as vontades de ambas quase sempre querendo suprir suas necessidades ao mesmo tempo, e já não há peito que preencha tanta voracidade e é entre mamadeiras e chupetas que os familiares vão sempre ajudando nesse processo duplo de crescimento, e o acalanto é cantado entre vozes desafinadas e descompassadas, no entanto repleta do valoroso perfume do amor.

(Juliana Trentini)

Postagem feita para o meu irmão Cláudio Henrique, para minha cunhada Lilian e para minhas sobrinhas gêmeas Laura e Celina.

domingo, 18 de outubro de 2009

Pretérito imperfeito





E os olhos não sintonizam nenhuma cor ou riso e não irão experimentar jamais o futuro do presente...O indicativo não indica nenhum caminho certo, são apenas curvas cheias de vento e de lombadas, o terreno dos planos ficou para trás.

Decidiu renunciar ao amor. Será que fez certo? Foi ser literatura, quis ser apenas verso. Rompeu com os paradigmas dos sentimentos e foi sentir-se, escondendo-se por trás das palavras para revelar-se como um papel em branco com pingos de tinta, abstração de imagem e de letras, voracidade, fome, voz do silêncio.


(Juliana Trentini)



Aperitivo poético:

meio verso de lamento

sorrisos são sempre fáceis
assim como o choro
percorrendo a face

o difícil é:
não poder compartilhar tudo
e despejar suas incertezas
na cama de um quarto escuro

(Juliana Trentini)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Diário da Ju II



A lua está falando na minha janela, sinto cheiro de vinho e poesia... mas me abstenho à propostas indecorosas e vou alimentando minha solidão noturna, abrilhanto meu pensamento com a intensidade das estrelas.

Ouço os prantos dos amigos e conforto-os em distância. Por que todo mundo que eu gosto vai embora? Tenho esse talento incrível para despedidas e sinceramente, eu detesto! Paradoxalmente adoro sentir saudades, é uma dor aguda e fina e deliciosa, tem sabor de amor e de força, palavra exclusiva da língua portuguesa e tão comum para os nossos sentidos humanos... Saudade você não fez da minha vida uma rua sem saída, mas estreitou minhas relações e é em um beco que desembocam todas as palavras múltiplas que representam uma única significância: O valor!

E esse valor cor de ouro me faz ser interprete da lua, me faz enxergar a cor do vento e me faz ser feliz entoando um lamento.

Saudade, saudade, saudade... Vai passear na rua e avisa que eu espero o que for preciso, pois não há nada mais importante que um amigo ou um amor ou bem qualquer, não há nada mais importante que ser sensível às razões de outrem, não dá pra ser egoísta o tempo inteiro e é por isso que eu sempre sinto saudades de alguém.

(Juliana Trentini)


Aperitivo poético do dia:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Repetição




Decisão. Não. O não sempre foi o caminho mais fácil para ela, prefere fugir da probabilidade do erro a levar um tombo. É péssima quando se trata de curativos, prefere manter o equilíbrio, evitando cordas bambas, poços de piche...

Andar descalça? Nunca! Pode ter um caco de vidro no caminho. Sangue. Vermelho. Vinho tinto apenas, barato, o bom que é ruim, sempre bom.

Misturando as tintas do olhar sempre se extrai música boa e poesia, e tudo acaba com a chegada da manhã. Apenas sorvem-se goles de lua nos raios de sol e nos fios de cabelo estão o cheiro dos segredos e do sim, contrapondo-se a sua eterna preferência pela negativa.

Houve uma repetição, uma ressonância ecoando. Agora o hiato e conseguinte virá o adeus de fato.

(Juliana Trentini)


Aperitivo poético do dia:

Lembrete

Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.

(Carlos Drummond de Andrade)

http://www.youtube.com/watch?v=RhrjgnsnNqQ

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Sem razões


Razão? Nenhuma. São sempre as não-razões que a circundam e que a carregam para contornar as ausências da solidez e brutalidade de uma pedra, desgastada pelas idas e vindas das ondas do mar, esse eterno clichê a acompanha junto às passadas curtas das suas pernas brancas que têm desejo de maior velocidade, porém caminham devagar e sempre. E esse “devagar e sempre” é eternamente uma tortura para o cérebro, constantemente mais veloz que as demais partes do corpo.

A pergunta solta inicial é devido as suas vontades...essas que aniquilam, esses quereres que tanto se querem e nunca sabe ao certo como são, o que são e por que são.

Leitor, você deve estar tonto com tanta confusão de ideias. Sim, o autor está confuso quanto a sua personagem, ou será que se fundiram e não há mais distinção entre o ser que escreve e o que vivencia? Acho que não há, as vozes se encontraram e se perderam no mesmo e simplório discurso. E esse logos fala do mesmo motivo de sempre, que tira o ser humano de órbita, que tantas vezes já foi dito e ainda assim se diz novamente.

Pergunta: Amor? Paixão? Sim e não! E lá vêm os paradoxos...é que gostamos de sentir, mas gostaríamos de saber que gosto tem a paixão, que sabor tem o amor. Tentamos, tentaremos infinitas vezes (o sempre de novo, prefiro o nunca, preferimos, é mais forte, tem gosto de café amargo). Mas esses “corações de ninguém” apenas queriam ser comuns, entregues, presas, pescado, prisão. No entanto, sua condição de estado é a de liberdade. Não adianta querer quebrar as correntes, a gente é para o que nasce.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”


(Juliana Trentini)


Aperitivo poético do dia:

Soneto da dúvida

Um calor fogoso, uma tocha ardente
Desejo que clama, anseia e castiga
Uma dor gostosa, malvada e amiga
Canto amistoso dum rosto indolente

Açoite açoitando a pele da gente
A ferida aberta na carne viva
É doença selvagem, aguda e ativa
Estaca enfiada num peito impotente

Pensamento novo e carência mágica
Ensejo altivante de cores trágicas
Tagarelar mudo de bela flor

Semeando a pureza em terrenos vastos
Iniciando a vida de corpos castos
É paradoxal o sentimento amor?

(Leôncio Neto)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Inversão




Amanheci noite. Essa dubiedade existencial inquietante povoa mais meu pensamento que a chuva de granizo que cai no asfalto e em meu apartamento. Teto, anseio e solidão...são canções que fermentam meu dia-a-dia, definição: Ela é muitas! obrigatoriedade errônea gramatical, ser plural é necessário e os medos vou depositando nas gavetas do armário junto aos amores recortados em cartas, fotografias e pétalas secas, passado.

Não quero ser invasiva , evasiva ou covarde e é por isso que sou calculista (do bem). Anoiteço enquanto é dia. Como é bom ser contradição e poesia.

(Juliana Trentini)

P.S:. Textinho feito de presente para Marana, Hellen e para mim mesma...é um mix de todas nós, penso eu ou não.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Adeus




Feito um bordado, procurou o melhor fio, a melhor linha e teceu uma despedida aguda e fina, delicada e bela como o amor que sentia, sentia também por não sentir mais nada. Preparou o tempo, conversou com São Pedro e pediu um dia cinza, o adeus combina com essa cor, essa ausência de luz representa a melancolia.

Procurou o melhor CD, colocou no som, o envolveu entre lençóis com direito a cafunés, massagens e beijinhos de esquimó, o cinza foi logo substituído pela escuridão da noite...ela estava munida de sonhos e não viu nenhuma estrela no céu, ele era ausente e pálido e vazio, tão vazio.

O fim foi sem substância com pouco afeto e muito alívio. Sem explicação nenhuma as pessoas se prendem a outras e a coisas que não acrescentarão nada em suas vidas, mas ela era muito ciente disso e calculou cada passo que daria e até onde poderia chegar numa perspectiva sem referencial algum, sem ponto físico, sem proximidade alguma com a exatidão, ainda assim sabia até onde chegaria sem nenhum tombo ou arranhão.

Ela compreendia o mistério e o olhar mais do que ninguém, sua colcha de retalhos está sobre a cama, abrigando todos os vazios, ausências, palidez e silêncios e o sonho é o que a liberta para dentro de si e a conforta como o travesseiro.

(Juliana Trentini)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Caminho




cacei palavras para compor um verso
me costurei no inverso da folha branca
empalideci no tempo e observei
o tapete de flores caídas ao chão

aprendi a digerir o não e a melodia branda
tirei as farpas dos dedos e compreendi
é o desafeto que toca o trem
também a falta de sonhos me faz sonhar

é a linha férrea que me faz seguir a terra
a cor cinza me faz querer o azul
as cordas entoam as marcas plantadas
na minha estrada em linha reta.


(Juliana Trentini)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Romântica




não quero a voz
já tenho o pensamento
ele se propaga ressonante
caindo feito areia do tempo

já te prendi no verbo
trancei seus dedos
nos fios dos meus cabelos

cosi seus medos na linha dos lençóis
preparo o dia para que chovam girassóis

não quero a voz
já tenho o pensamento

(Juliana Trentini)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Água corrente




O mundo cabe nas palavras
E as palavras não cabem em mim
Exacerbam o ser que se projeta e se desfaz em frases
Transbordando as margens e atravessando o leito
Do rio que corre perfeito por entre as pétalas brancas
Exalando medos enraizados em meu jardim.


(Juliana Trentini)

domingo, 9 de agosto de 2009

Diário da Ju





Hoje a fala é totalmente autobiográfica, estava meio jururu como muitas vezes em minha vida, tenho uma tendência poética à melancolia, não vejo isso de uma maneira negativista, acho a melancolia um charme.

Sou uma blogueira, adoro ler os blogs alheios, fiz um comentário no de uma colega que falava sobre o amor bobo... o comentário dizia o seguinte:

“O amor é mesmo bobo, desarruma cama, casa, deixa a gente com tantas asas que caímos com mais velocidade e por mais bobo que ele seja, é sempre mais esperto que nós mesmos.“

E esse todo bobo amor que carrego em mim tem me preparado cada armadilha e tenho ganhado vários puxões de orelha de minha mãe, ela ainda não se adaptou a modernidade do “ficar” e não entende que eu tenho tanto amor, mas tanto amor pra dar que eu posso compartilhar com várias pessoas “ao mesmo tempo”... chega de me denunciar. Ai vai um tema roubado do blog que tem cheiro de café:



Segredos de amor bobo


Um convite. E a resposta: “– Certo, eu vou!- “ Foi! Conversas sem fins lucrativos, TV e ventilador de teto ligados e os olhares... “Apaga a luz!” (bem Marisa Monte). Ele apagou e acendeu suas vontades, a timidez ainda tomava conta do comportamento feminino da garota, havia o toque expressivo e desajeitado dos dedos e o riso vinha com a ansiedade enfeitar o seu rosto delicado. – Do que você está rindo?- perguntou ele. – Nada!- E não era nada mesmo, era reflexo do medo de se envolver, mas já estavam envolvidos. Não era amor, nem paixão, era um gostar sem nomenclatura.

Ela passou a noite furtando o seu lençol, volta e meia acordava e percebia o “crime” cometido, se aproximava e dividia o tecido, enlace, perfume. De manhã quase tarde, rostos virados para disfarçar o hálito (nem tudo é perfeito), muitos abraços. Depois, ela foi para casa, passaram a se desencontrar nos dias em que se seguiram. “você invade mais um lugar onde eu não vou”. Ela mudou-se para um interior distante, sem tempo para despedidas, não houve comunicação.

Ele continuou com sua vida notívaga, conheceu alguém, começou a namorar, gostava mas não amava (só pra variar). Ela voltou, mas ele não havia esperado. Ambos sentiram falta do affair mal acabado que haviam tido. Ele sentia falta dela roubando seu lençol, ela sentia falta do que nunca pode sentir por ele. Ele permaneceu com sua namorada, eles nunca mais conversaram e continuaram a invadir os mesmos espaços...” há um desencontro, veja por esse ponto”, um encontro desencontrado, ou vários...segredos de liquidificador, lençol, travesseiros, medos, um amor bobo que nunca se permitiu ser amor de verdade e acabou assim como os que são de fato.


(Juliana Trentini)

domingo, 2 de agosto de 2009

Conformismo




A chuva deu adeus à cidade, inaugurou-se um dia cheio de sol e nuvens branquíssimas, devido a sua enfermidade, só pode espiar a claridade pela janela, observando as pessoas que caminhavam, os carros que passavam e os crentes que seguiam com suas bíblias em direção a igreja que tem pertinho de sua casa, no som um CD bucólico tocando e um desejo enorme de comprar uma casa no campo, onde pudesse preencher seus vazios com a natureza que tanto gosta.

A capital sempre o vence, ele não consegue deixar a cidade, emprego, correria, dinamismo. A vida o escolheu para ser assim, não foi ele que escolheu essa vida pra levar... Para, inerte sobre sua cadeira do papai e pensa: - Vou encarar esse teatro de ser feliz e subir no palco do destino- Ele prosseguiu com seu forjado conformismo e com seu falso amor declarado, pois não ama nem a si mesmo, ele jamais entenderá o amor, pois não é digno de senti-lo.

Entregou os pontos e foi envelhecer, sentado na cadeira do papai, olhando o tempo passar pela janela e uma frase corriqueira e desagradável – Mulher, traz uma xícara de café!-.

(Juliana Trentini)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

De vinho e de violão


Nada para fazer na capital provinciana, dia chuvoso, um quase frio, aquele vento do litoral bem característico da cidade. Na rua, apenas luzes em alguns postes, outros já queimados, a calçada se dividia em um barroco contemporâneo entre luzes e sombras. Dentro da casa, eles repartiam o tédio, um casal jovem com a alma idosa, sem muitas afinidades. Como foram pensar que um dia poderiam ser compatíveis? Mas pensaram e queriam estar juntos.

-Vamos fazer nada juntos?- Abriram uma garrafa de vinho tinto suave e barato, ele pegou o violão e foram compor, letra e música, sem declarações de amor, ela acha o romantismo algo brega, ele é ultra-romântico. A música? Não falava de amor.

Entre cordas, dedos e o roxo macerado dissolvido em goles, havia a necessidade, a necessidade humana de encontrar um chão e um caminho, as inquietações depositadas no travesseiro, esse era o plano sensível do conteúdo. Essa era a estética da poesia adormecida no papel e vivenciada na melodia saltada do violão.

Aquele foi o último momento em que ela se sentiu feliz, decidiu partir e foi seguir sozinha como gostava de ser, respirando as páginas dos livros e espiando a passarada da passagem do seu destino.


(Juliana Trentini)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Exaustão




não consigo dar um passo
não sigo nenhum compasso

não há mais uma letra
ou rima
não há mais uma música
ou ritmo

nem formato
ou retrato

sou uma exaustão
que realiza uma combustão
química ou não

estou vestida de notas musicais

eu cancioneiro sem ás
razão sem gás ou fôlego
sem sal ou soro

rio que corre no leito
sou choro que entoa o peito
verso saltado do violão

Canção.


(Juliana Trentini)

Sambinha chorado





a saber sofrer
ninguém me ensinou
mas é preciso sofrer
pra saber o que é amor

não choro nem um chorinho
a canção vai caindo aos pouquinhos

é feito rio
que corre do olhar
para tentar levar
um canto de pesar

mas só quem sofre
sabe amar
pois nessa vida
nada se conquista
sem errar

pois nessa vida
nada se tem
sem tentar

(Juliana Trentini)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Feliz dia do amigo


Aperitivo do dia:

Meus amigos

Meus amigos
Quando os revejo
Depois de somados anos
Deixam-me triste:
O amigo que tive
Não é aquele mais gordo
Ou mais magro.
Meu amigo era mago.

Meus amigos
Quando os reencontro
Depois de tanta camada
De dias passados e pensados
Deixam-me tonta
Se não encontramos a palavra
De resgate.
Ser amigo é arte.

(Anchella Monte)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Solo feminino


Ela é pedra e ainda assim se parece com uma interrogação. Gosta do roxo e do branco (paradoxo), tem dias que está para Florbela, tem dias que está para Sophia. Ela é o tempo... Instável, no entanto, caso existam recursos, facilmente descobre-se a metereologia de seu sangue.

Cansa com as idas e vindas em ônibus lotados com pessoas cheirando a perfume barato e/ou suor. Ela não é tão chata quanto parece, mas gosta dos cheiros simples: de sabonete e de sonhos. Enjoa com coisas doces demais!

Gosta de música antiga e poesia moderna, alimenta-se de medo e se arrisca todos os dias. Cobiça o inexistente que habita alguma atmosfera pré-existente. Está sempre desconfiada, no entanto, rende-se facilmente ao inimigo.

Se fosse um instrumento seria uma flauta, suave e elegante. Se fosse uma cor, não seria, seria um vitral ao sol, pois cada dia ela é uma e todo dia ela é só.

(Juliana Trentini)

Aperitivo poético:

Regresso para mim
e de mim falo
e desdigo de mim
em reencontro

os pontos
um por um:

o sol
os braços

a boca
o sabor

ou os meus ombros

Trago para fora
o que é secreto
vantagem de saudade
o que é segredo

Retorno para mim
e em mim toda
desencontro já o meu regresso

Maria Teresa Horta

terça-feira, 23 de junho de 2009

Casamento





o mar estava na concha
e de tanto pentear ondas sonoras
tornou-se tabuleiro de búzios
tentou ler o destino numa bacia com água
e cera de vela derretida
simpatia de véspera de Santo Antônio
... ... ... ... ... ... ... ...

teve medo de casar
queria sempre namorar:
os peixes e a espuma
noivar com o sol
mas a letra da bacia era um C
casou-se com a concha.
E não ouviu o vácuo
virou mosaico de mar
personificou os cílios
e fez par com olhos cor de areia
e sabor de infinito.


(Juliana Trentini)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Brancura

hoje
acordou mudo
cheio de pausas e parênteses
papel em branco
são tantas as reticências
é tanto o silêncio
é tanto.

(Juliana Trentini)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Diálogo

Pai e filha. Uma barreira, um mundo, um carnaval, uma lacuna, um abismo entre eles e muito afeto. O sol nascia, ele a acordava para fazer alongamentos na praia com a ilusão de que a faria ultrapassar aquele tamanho de fita métrica que possuía, ilusão.

Nenhum centímetro a mais e os passeios matinais personificados de pássaros foram logo sendo substituidos pelas novidades que a noite trazia , os sabores notívagos sempre mais sedutores do que a luz invasora da manhã, do que o amor paterno e visceral.

Poucas palavras, o silêncio sempre propagou os versos inaudíveis e insolúveis, versos de poesia cálidos e pausados estão contidos em uma garrafa de medos e de preocupação que ele bebia por ela, como um conta-gotas.

Um pranto, uma rouxidão imensa, imersa na falta da utilização do logos. Uma frase em pensamento: “- eu queria tanto dizer eu te amo”, mas não disse, já era tarde, pensou ela. Mas não era. Ele soube romper a introspecção da não palavra e levou consigo a imagem e o sentimento do ser latente que proliferava infinitos no cintilar dos cílios.



(Juliana Trentini)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para não dizer que não falei de flores















Violeta- Florbela Espanca e a simbologia das cores


É perceptível a ligação da poesia de Florbela Espanca com a representatividade das cores. Em especial a cor roxa, que se faz muito presente em seus versos. As cores estão muito ligadas ao nosso estado de espírito e a autora do Livro de Mágoas não desassociava a poeta do eu lírico, havia uma fusão, uma mistura. E por ser mistura, sua cor também é, o violeta, resultado do vermelho com o azul. O azul é a cor do céu e das águas, da verdade, da intuição, do inconsciente, da expansão, da serenidade, da sinceridade, do poder no plano mental e da realização espiritual. Simboliza ainda a primavera e a renovação. E o vermelho representa o fogo, o calor, a nobreza, a impulsividade, as paixões, a sexualidade, a ação, a conquista, o movimento e a atividade. É a cor do sangue, conota energia e vitalidade. Mas o roxo, reunindo tantos contrastes, resultada em uma sensação de tristeza. E é essa tristeza que nós respiramos ao lermos os poemas de Florbela.


No estudo crítico de José Régio a respeito da poética de Florbela Espanca, ele diz que a sua poesia é dos nossos mais flagrantes exemplos de poesia viva. E essa vitalidade revela-se nos sentidos, sentidos estes que visualmente capturamos com a excelência das cores, com os sons inebriantemente melancólicos que se desprendem dos versos, com o sabor amargo dos amores mal sucedidos, com o tato das paixões efêmeras e com o cheiro da morte que se aproximava pelo clamor das palavras de um ser que sofria.

Disse no poema Tortura:

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
---E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!... (...)


Nessa primeira estrofe do soneto Tortura, podemos observar características simbolistas no uso das reticências. Há também a presença das exclamações no final do segundo e do quarto verso. Usou como recurso colocar em letra maiúscula as palavras “emoção”, “verdade” e “sentimento” com o intuito de chamar a atenção do leitor para a significância dessas palavras no contexto poético dos seus versos. Em relação ao poema, o cinza deixa transparecer uma dolorosa relação com o vazio.
No poema A minha Dor, abaixo transcrito, vemos transbordar os sentidos em um sentimentalismo doloroso e essencialmente feminino.


A minha Dor
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

A palavra “dor”, claramente expressa, intensifica o sentimento de desolação presente no poema Tortura, aparecendo com o intuito de chamar atenção para a palavra, ressaltando seu sentido, exacerbando a dor. O poema é povoado de imagens e sons, mais uma vez provocando os sentidos de quem o lê. A melancolia, a insatisfação, a tristeza- que é roxa- está sempre presente, representada pelo lírio. A beleza está acompanhada de martírios, de uma solidão, de um chamado que ecoa ausente.


E a poesia de Florbela Espanca tange uma insaciável busca pelo amor, sonetos impecavelmente fortes e dramáticos. Uma tristeza infinita que termina com a chegada precoce de sua morte. Mas a autora só morre no plano físico, no entanto seu nome permanece junto com a sua melancolia e palavras carregadas de um desejo de amar, desejo que fez seu coração declarar falência, desejo esse que nos faz seguir uma aquarela de cores sombrias repletas de saudade, saudade de um sentimento que não pôde ser vivido.




Esse foi o trabalhou que me rendeu um dez e outras cositas mais, agradecimentos especiais ao Professor Dr. Márcio de Lima Dantas que me apresentou as cores da autora do Livro de mágoas e que tanto me ensina, ao amigo Henrique que me deu uma boa idéia para o trabalho, a minha mãe que fez a correção ortográfica e a Florbela que é o fermento de tudo isso.


Meu aperitivo:

Lilás

Só eu gosto do silêncio
É tão música quanto à ressonância de uma harpa
Como solos de guitarra corta feito faca
Incomoda feito farpa presa ao dedo

Denso como o medo
Invisível é vento
Palpável feito areia
Da ausência me alimento
Sou alma que floreia

Ficar só é livre arbítrio
Se me desmorono ou edifico
Já não importa, enraízo feito visco ou figo

Sou pássaro que repousa verde
Faço o ninho e me alinho
O mundo é o moinho retirado do cartola

Dor de filha sangra e chora
Um dia o pai parte
E já será tarde
Será tarde
chuvosa


(Juliana Trentini)