quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Bolo de fubá


Prometera fazer um bolo de fubá. O seu preferido.  Os dias foram passando, meses, anos e ela nunca arrumava tempo. Sempre ocupada com as palavras, com os prazos, com todos, menos com o seu avô. Também nele nada era convidativo, o cigarro sempre aceso, a ausência de cheiro de colônia, o tom de voz nunca era o ideal “Juliana, fala mais alto! Você sabe que eu sou surdo.” E quando subia o volume...”Também não precisa gritar, eu ainda escuto”. E o diálogo era muito difícil. E os temas também não despertavam muito interesse, hora era o exame de próstata, hora a prótese dentária. Nem os extraterrestres que durante muito tempo foram a temática preferida viriam a permear nossas conversas. Aliás, há muito tempo não havia mais conversas...

Tudo foi varrido com o vento, imitando sua atividade diária. Era um homem que gostava da casa limpa, da rua limpa, embora não tenha conseguido jamais fazer isso com sua própria vida. As amarguras do passado, os traumas e a tristeza o fizeram um homem duro, solitário, sem amigos.  No entanto, sempre foi um homem bom. Deve ter se tornado um gari de nuvens...

Da próxima vez, deixará o forno aquecendo enquanto bate o bolo, antes que a massa encontre a morte antes de ser fermentada, para que não se transforme em poeira, folhas secas e uma receita no papel.

terça-feira, 7 de agosto de 2012










Repreendo-me
Senhora de mim
Pastoreio rebanhos
Comando uma nau vazia
Senhora de mim
Pastoreio rebanhos e montes
chuvarada e correntes
Morte
para o que se nega florear

sábado, 14 de julho de 2012

Sou feita de chuvas
e tenho um sol para adormecer

terça-feira, 8 de maio de 2012

O relógio caiu
o café derramado
escorrendo separações
tempo
e
signos
chás para as náuseas
carqueja, camomila, boldo
chá para a alma
afago
consolo

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Danos

Talvez pudéssemos repará-los
Não há cura
Para um mal

Peguei a lavanda
Como água e sal
Estanca

Dobrei as vestes
Uma a uma
Flores silvestres cravadas no quintal

Lágrimas mínimas
Não sangrarei um oceano
Oceania de pássaros
Revoada
Vou

bailarinando os danos
Pendurarei
 os planos no varal
Ventania escreve
as lições em sua pele

Vilã 

Vil

tantos sóis
plantarei
fora da vida

nascente
das saídas

água
é corrente



Juliana Trentini


domingo, 27 de novembro de 2011

Labor

A poesia cotidiana
Transgrido
Vida repleta de inoperâncias
Opero

Formiga
Grão em grão
De bico

Impossibilidades
Frutifico

Triste
Triste seríamos
Sem ofício

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

As Razões do Amor

Hoje, o aperitivo foi  furtado para ilustrar o meu pensamento sobre o amor. Ando pensando nele ultimamente, na vontade incessante de senti-lo latente em meu peito, mas essas coisas a gente não controla, né? Ou controla? Afinal o que é o amor se não uma simbologia criada por nós mesmos de algo que só existe na projeção do nosso pensamento?



Autor: Rubem Alves teólogo, filósofo e psicanalista brasileiro. Rubem Azevedo Alves nasceu em 1933, Boa Esperança, Minas Gerais. Famoso cronista.

 Fonte: Crônica publicada no Correio Popular; Campinas; em 14/05/92


Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa: "A rosa não tem "porquês". Ela floresce porque floresce."
Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.
"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.
"Amor é estado de graça e com amor não se paga."
Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo. "Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..."
Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.
Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?
Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar...
Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...
Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.
Variações sobre a impossível pergunta:
"Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Cecília Meireles)
Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam.
Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos.
Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo..."
Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. "O amor começa por uma metáfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."
Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Matéria de poesia - aos meus poetas preferidos do momento

E meu sono foi levado pela inquietação da poesia
hora me sorria e hora me chorava

Entre Manoel e Manuel
estrela e chão

canto à luz noturna
laços
lágrimas
riso

e de infância
em infância
oscilo
por dois amores
meu pensamento pertence
ao cinza e as cores

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dores


Sabe o que dói mais nos ritos de passagem? É não saber confortar o outro...a minha dor eu amenizo, preparo curativos e bandagem. Suporto. Sempre suportei separações, brigas, intrigas, cortes e cortes e mais cortes e depois de horas a fio, trancada no meu quarto- repleto de ausências e desertos- as lágrimas acabam lavando-me com perfumes de conformação. E quando menos espero, lá estou eu gargalhando com algum papo jogado fora com os amigos, ou mesmo em casa, onde sempre encontrei boas histórias. 

Mas tem algo que não sai da minha cabeça, não tem saído, é verdade, faz morada nos meus ouvidos, são gritos e gritos e gritos. Eu queria roubar a sua dor para mim. Queria sim. Para tratá-la como sempre fiz com meus ais. Se há algo no mundo que não podemos furtar é o sentimento alheio, não posso embalá-lo, não posso conter seu choro, não posso falar, porque só pertence a você a dormência dessa agonia.  Velo seus passos calados pela casa, velo seu sono inquieto, seu choro fazendo toada com a canção de Chico. 

E de mim só posso dizer que nunca fui boa para orações ou palavras de conforto, porém guardo nos braços todos os abraços que puder lhe dar.